Senior living ainda precisam construir hospitalidade como cultura

Daiana Arnold é Designer e Diretora da Casulo Arquitetura - Foto: Divulgação

O comportamento do público 50+ já mostra que essa oportunidade está acontecendo e os hotéis brasileiros vêm registrando uma participação expressiva desse público

Artigo de Daiana Patrícia Arnold*

Recentemente, visitei um empreendimento de Senior Living em Porto Alegre. O conceito ainda é relativamente novo no Brasil e propõe uma forma diferente de morar na maturidade, com residências planejadas para pessoas que seguem independentes, mas buscam mais segurança, conforto, serviços, convivência e qualidade de vida, sem a lógica de uma casa de repouso ou instituição de cuidados.

A proposta é acompanhar uma fase da vida em que autonomia continua sendo importante, mas algumas necessidades mudam. O morador pode ter acesso a serviços de saúde, alimentação, atividades, lazer, espaços de convivência e suporte quando necessário, mantendo liberdade para escolher como quer viver seu dia a dia.

Essa mudança acompanha também uma transformação no comportamento desse público. Segundo a data8, os brasileiros com mais de 50 anos movimentaram cerca de R$ 1,8 trilhão em consumo em 2024, equivalente a 24% do consumo privado dos domicílios. A projeção é que esse mercado chegue a R$ 3,8 trilhões em 2044, representando 35% do consumo.

Estamos, portanto, diante de um publico que envelhece, mas também consome, viaja, escolhe onde quer morar, busca experiências e redefine o que entende por qualidade de vida. Foi com esse olhar que entrei naquele empreendimento. Mais do que conhecer uma nova categoria imobiliária, queria entender como estamos traduzindo a longevidade em ambientes concretos, e se aquilo que estamos criando realmente corresponde à vida que essas pessoas querem viver.

O projeto está inserido em uma área arborizada, preserva uma antiga casa existente no terreno e oferece diferentes níveis de cuidado. O público mais recorrente, segundo os responsáveis, é formado por pessoas independentes, ativas e com idade média de 80 anos. O empreendimento é bem estruturado, mas saí de lá com uma pergunta que considero maior do que aquele projeto: Estamos realmente projetando espaços para a vida que as pessoas querem viver?

Alguns detalhes me fizeram pensar sobre isso

Os apartamentos são extremamente compactos e possuem uma única cama e solteiro, não há espaço para uma cama de casal, como também não há uma poltrona para receber alguém. O quarto foi pensado

Quando desenvolvo um ambiente, procuro projetar suas possibilidades de uso e, a cada decisão, me pergunto se aquilo realmente atende ao propósito para o qual foi criado. O projeto precisa funcionar na vida real, e não apenas na imagem.

Foi justamente o que me incomodou naquela visita

Comecei a imaginar os momentos que acontecem depois que a porta do apartamento se fecha: e quando chegam os filhos, os netos, um amigo? Como receber alguém em um espaço tão reduzido? E quando duas pessoas que passaram a vida juntas querem continuar vivendo juntas?

Naquele formato, não havia possibilidade de substituir a cama de solteiro por uma cama de casal.

Também não havia uma poltrona para leitura, descanso ou simplesmente para alguém se sentar. Isso me fez pensar sobre os momentos privados da vida dentro daquele espaço e sobre quantos pontos de

E a pergunta foi ficando ainda mais incômoda, uma pessoa com capacidade financeira para investir cerca de R$ 22 mil mensais em uma estrutura desse tipo estaria, justamente nesta fase da vida, procurando apenas atender às necessidades básicas ou buscando também conforto, autonomia e qualidade de vida?

A cama de solteiro acabou se tornando, para mim, um símbolo dessa questão. Até crianças e adolescentes já têm, em muitos casos, quartos pensados para receber amigos, estudar, descansar e viver diferentes momentos. Por que um adulto de 80 anos, que construiu uma vida inteira, deveria ter menos possibilidades dentro do próprio quarto?

Também senti falta de elementos que pertencem à cultura e à convivência. Em um estado como o Rio Grande do Sul, onde o chimarrão é um ritual social tão presente, não havia um espaço pensado para uma roda de chimarrão. Não havia sequer um lounge com sofás que pudesse funcionar como lugar de espera, encontro ou recepção de amigos sem que fosse necessário levar essas relações para dentro das áreas mais íntimas do empreendimento.

São detalhes, mas são justamente os detalhes que revelam se um projeto foi pensado a partir da vida das pessoas ou apenas a partir de um programa de necessidades. E isso me leva a uma questão que considero importante para o mercado: como os incorporadores estão escolhendo os escritórios que vão conceituar produtos para a longevidade? A escolha está baseada na visibilidade ou na força da imagem nas redes sociais? Ou existe uma investigação sobre repertório, comportamento, storytelling, operação, cultura local e, principalmente, capacidade de compreender como aquele espaço será vivido?

Projetar para a longevidade exige mais do que criar uma arquitetura bonita. Exige repertório para enxergar os pontos de contato que fazem parte da vida, inclusive aqueles que não aparecem na planta, no render ou na fotografia de divulgação. São detalhes de projeto que revelam a diferença entre criar um ambiente para uma pessoa e criar um ambiente para a vida daquela pessoa.

Envelhecimento da população brasileira

Segundo o IBGE, em 2023, 15,6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais. Em 2040, essa proporção deverá chegar a cerca de 21%. Em menos de duas décadas, uma em cada cinco pessoas no Brasil estará nessa faixa etária. E existe uma questão importante para o mercado imobiliário: onde essas pessoas vão viver?

Uma pesquisa realizada pela Brain Inteligência Estratégica em parceria com a Caio Calfat Real Estate Consulting mostrou que 37% dos entrevistados demonstraram interesse em morar ou investir em empreendimentos voltados à longevidade. Ao mesmo tempo, 55% ainda preferem adaptar a própria. residência. Ou seja, existe interesse, mas também existe uma enorme oportunidade para repensar o que estamos oferecendo.

A hotelaria entra nessa conversa

O setor já possui algo que muitos empreendimentos de senior living ainda precisam construir: hospitalidade como cultura. Receber, acolher, servir, criar experiências, compreender diferentes perfis de pessoas, trabalhar gastronomia, lazer, entretenimento, bem-estar e relacionamento fazem parte do repertório da hotelaria.

E o comportamento do público 50+ já mostra que essa oportunidade está crescendo. Hotéis brasileiros vêm registrando uma participação expressiva desse público. No Fazzenda Park Hotel, por exemplo, hóspedes com 60 anos ou mais representavam 30% da ocupação. Na Jurema Águas Quentes, o número de hóspedes com 55 anos ou mais cresceu 31% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano interior.

E se o hotel não fosse apenas um lugar para passar alguns dias? E se parte dessa estrutura pudesse responder a uma nova maneira de viver? Um lugar onde a pessoa pudesse permanecer por períodos mais longos, com serviços, gastronomia, natureza, atividades, convivência, segurança e experiências, onde o cuidado estivesse presente sem transformar a vida em uma sequência de procedimentos.

O movimento internacional de senior living já aponta nessa direção. Modelos independentes e ativos vêm ganhando espaço, enquanto empreendimentos de alto padrão incorporam elementos tradicionalmente associados à hotelaria: gastronomia, spa, jardins, cinema, atividades culturais, serviços personalizados e espaços de convivência.

Para o hoteleiro, isso abre uma possibilidade estratégica, olhar para a longevidade não apenas como um novo público, mas como uma oportunidade de negócio e de posicionamento. A infraestrutura já existe, a experiência de hospitalidade também. O que precisa ser revisto é a maneira de pensar o produto.

Envelhecer já não significa deixar de desejar movimento, beleza, autonomia, encontros, descoberta, prazer e pertencimento.

Fonte: Revista Hoteis