Multipropriedade movimenta R$ 30,38 bilhões e avança no Nordeste

Bahia, Ceará e Alagoas puxam multipropriedade regional, que combina turismo de praia, diversidade de perfis e espaço para novos polos

Vivant Eco Beach Resort, localizado na península de Maraú, na Bahia, é um dos empreendimentos de multipropriedade lançados no Nordeste. Foto: Divulgação

O mercado de multipropriedade no Brasil chegou a 224 empreendimentos em 99 cidades de 18 estados, com Valor Geral de Vendas potencial (VGV) de R$ 100,5 bilhões e avanço das vendas em 2026. No Nordeste , o setor soma 65 empreendimentos e um VGV potencial de R$ 30,3 bilhões, sendo liderado por Bahia, Ceará e Alagoas. O turismo de praia e a variedade de produtos têm sido fatores importantes para a consolidação do modelo na região.

Os dados fazem parte da décima edição do estudo “Cenário do Desenvolvimento de Multipropriedades no Brasil” , produzido pela Caio Calfat Real Estate Consulting. O levantamento mostra que, no país, o VGV vendido saltou de R$ 53,3 bilhões para R$ 66,3 bilhões em 2026 , enquanto o estoque caiu de 42,5% para 34% , indicando melhora na absorção do produto pelo mercado.

No recorte regional, o Nordeste aparece como um mercado já consolidado e com características próprias. Além de reunir 65 empreendimentos , sendo 33 prontos, 28 em construção e quatro em fase de lançamento, a região ultrapassa 11,6 mil unidades hoteleiras e soma um VGV de R$ 30,3 bilhões , segundo o estudo.

Em entrevista ao Movimento Econômico, Fernanda Nogueira, diretora da Caio Calfat Consultoria, afirmou que o diferencial nordestino está justamente na capacidade de reunir perfis distintos de produto dentro do mesmo mercado.

“É uma região que se formos analisar, é a mais democrática , pois tem multipropriedades de vários perfis, do econômico ao mais elevado. É a região que conseguiu abarcar quase todos os perfis de cotas de multipropriedade”, afirmou.

Na prática, essa diversidade ajuda a explicar por que o Nordeste segue relevante mesmo em um cenário mais maduro para o setor. Se em outros momentos a multipropriedade cresceu com forte ritmo de expansão, agora o mercado passa a avançar com projetos mais calibrados , ancorados em destinos já consolidados e em produtos mais aderentes à demanda.


Turismo de praia segue como principal motor da multipropriedade no NE


A base dessa expansão no Nordeste continua sendo o turismo. Segundo Fernanda, a região mantém sua vocação histórica ligada ao lazer, o que sustenta o interesse de incorporadores, operadores e compradores.

“A vocação do Nordeste sempre foi o turismo e ele continua impulsionando. Se formos olhar para os turistas, cerca de 80% do público brasileiro tem preferência por praia e sol”, explicou.

Ao contrário de mercados com maior peso corporativo, a região avança sobretudo em projetos voltados à segunda residência de uso compartilhado, turismo recorrente e permanência por períodos curtos ao longo do ano.

Dentro do Nordeste, a Bahia segue na liderança do setor, com 20 empreendimentos . Na sequência aparecem Ceará, com 12, e Alagoas, com sete. O ranking confirma a força dos destinos turísticos mais consolidados da região, mas também aponta espaço para rearranjos entre os estados nos próximos anos.

Fernanda observa que a liderança baiana não é recente. Segundo ela, o estado já aparece na dianteira do mercado regional há anos, enquanto os demais variam mais de posição conforme surgem novos projetos, retrofits ou movimentos localizados de expansão.


João Pessoa desponta entre os novos vetores


A capital paraibana tem apresentado ao mercado grandes projetos turísticos, que começam a posicionar a cidade também no mercado da multipropriedade. No estudo lançado pela Caio Calfat, João Pessoa aparece entre os destinos que vêm ganhando tração no segmento , mas na avaliação de Fernanda, há possibilidade de crescimento dos empreendimentos.

“Temos visto muito desenvolvimento em João Pessoa e ela virou a bola da vez no Nordeste , principalmente pelo Polo Cabo Branco, que está trazendo bastante desenvolvimento”, afirmou.

Além da Paraíba, regiões como Arraial d'Ajuda e Trancoso, na Bahia, continuam no radar de investidores e desenvolvedores. “Hoje a multipropriedade está mais calçada no conceito. O empreendedor que entra nesse mercado já entende bem no que está investindo. Deveremos ver mais investimentos na região, com predominância no litoral ”, afirmou.


Multipropriedade se aproxima cada vez mais da hotelaria


A multipropriedade também passou por mudanças ao longo dos anos. Se antes era vista como um investimento e uma moradia de temporada , as demandas de mercado fizeram o produto evoluir e se aproximar mais do conceito de hotelaria , com mais hospitalidade e serviços.

“Hoje a multipropriedade está muito mais próxima do que é um hotel do que quando nasceu. Ela era um produto, um flat de lazer, mas agora temos produtos mais personalizados”, disse.

A movimentação do setor também é acompanhada por operadoras e redes com atuação nacional. Para João Cazeiro, diretor de Desenvolvimento da Livá Hotéis & Resorts, o avanço do turismo segue abrindo espaço para novos empreendimentos de hospitalidade, incluindo a multipropriedade.

“A indústria do turismo continua crescendo e, neste cenário, o fomento e o desenvolvimento de equipamentos turísticos na hospitalidade também, o que inclui a multipropriedade nas várias regiões do País, especialmente no Nordeste, Sul e Sudeste, onde teremos aberturas ainda este ano, além de prospecções avançadas em estados como Bahia, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo”, disse ao Movimento Econômico .

O executivo cita ainda o lançamento da Livá Residences , unidade de negócios da empresa voltada ao segmento de branded residences, modelo que vem ganhando espaço no Brasil ao integrar moradia, serviços e experiência em um único conceito. “Nós lançamos a unidade de negócios já com o projeto Alma Aramis, na Península de Maraú , na Bahia, que entra em operação ainda no primeiro semestre deste ano ”, afirma.

Na visão da Caio Calfat, essa transformação ajuda a manter o interesse do comprador e melhora a experiência de uso. Os empreendimentos passaram a oferecer estrutura mais completa de alimentos e bebidas, serviços de arrumação, áreas de lazer mais robustas e, em alguns casos, conceitos temáticos que aproximam o produto da lógica da hotelaria tradicional.

Esse movimento também conversa com a realidade do Nordeste , onde a multipropriedade muitas vezes funciona como âncora de destinos turísticos ou como complemento a projetos mistos, que combinam hotel, residencial e uso compartilhado.

“A Multipropriedade precisa oferecer conforto e estar preparada para que a pessoa desfrute e se mantenha como proprietário por uma longa data. O mercado tem evoluído bastante, acompanhando a tendência do comprador e certamente teremos novidades nos próximos anos”, avaliou Fernanda.


Fonte: Movimento Econômico